JOG D’PALAVRA. Depressão pós CAN e o mês de xkorrôse

17 Outubro de 2024

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Crónica de Benvindo Neves

Em Cabo Verde, para quem é camponês Outubro é, normalmente, um mês que provoca ansiedade. Porque de tudo ou nada. Ou chega e traz mais aquela chuva que faltava para garantir boa safra ou, então, com o ano agrícola já praticamente garantido, vem desaforado e arrasa tudo. Às vezes com aquela temida lestada, outras vezes com chuva desmedida a levar tudo para o mar de forma xkerrosód. Antigamente, em Santo Antão, camponeses até tinham dificuldade em “mentar” o nome do fulano que ocupa a 10ª posição no calendário. E a contar os meses das as-águas, quando chegavam em outubro diziam "kel ot".

Pois bem, outubro revelou-se neste 2024 um autêntico mês de xkorrôse para os Tubarões Azuis. Dois jogos, zero vitórias, zero empates, zero golos marcados… seis pontos foram-se por água abaixo.

As duas derrotas consecutivas com o Botswana num espaço de cinco dias vieram acrescentar mais uma pecha ao consulado de Bubista que, até ao jogo com o Egito em setembro último, tinha um registo muito interessante à frente dos Tubarões Azuis.

Desde que se estreou no comando da seleção nacional o técnico, de 54, anos nunca tinha perdido dois jogos oficiais de forma consecutiva. Nunca tinha sofrido dois desaires seguidos fora de casa. Nunca tinha perdido um jogo no Estádio Nacional. E os Tubarões Azuis já não passavam duas partidas seguidas sem marcar golos desde novembro de 2020. Nessa altura, Cabo Verde teve uma jornada dupla com o Ruanda e que redundou em dois empates, 0-0. Curiosamente, tinham sido os dois primeiros jogos oficias de Bubista como selecionador nacional.

Em apenas um mês esfumaram-se todas essas marcas. Os Tubarões Azuis estão a atravessar a sua pior fase da era Bubista. E ele sabe disso. “É um momento menos bom, temos de ser frontais em relação a isso. Mas momentos maus vêm para nos tornar mais fortes”, disse o selecionador em declarações à RCV logo após a derrota de terça-feira em Francistown.

Para se encontrar duas ou mais derrotas consecutivas de Cabo Verde em partidas oficiais temos de recuar sete anos. Na altura, com Felisberto Cardoso “Beto” ao leme, os Tubarões Azuis sofreram quatro desaires entre março de 2016 e junho de 2017, com Líbia, Senegal, Burquina Faso e Uganda. (Escrevi sobre isso na semana passada). Nessa famigerada fase, Cabo Verde não marcou qualquer golo!

Bubista está, por isso, a lidar com algo novo. Tão sereno como ele é, parece encarar a situação com calma e discernimento. “Neste momento todos nós estamos extremamente tristes, mas há que ter confiança. O povo tem que ter confiança porque este grupo de jogadores já demonstrou que consegue lutar até ao fim para conseguir a qualificação”, disse na mesma entrevista após a segunda derrota com o Botswana.

O selecionador tem razão quando fala da capacidade do grupo em dar a volta a situações adversas. Mostrou isso nas duas anteriores campanhas de qualificação para as Copas Africanas de 2021 e 2024. Por exemplo, para chegar à CAN dos Camarões, foi ganhar em Moçambique quando estava obrigado a tal na última jornada da fase de apuramento. Na campanha de apuramento para o Mundial do Qatar o grupo também mostrou resiliência. Na ultima jornada, em Lagos, estando a perder conseguiu empatar e quase que batia o pé à Nigéria, tendo ficado a 1 do primeiro lugar.

Mas agora o contexto é outro. Ainda que tenha muitas chances de se qualificar, Cabo Verde depende de terceiros. Pode até

dar-se o caso de vencer o Egito em casa e ganhar Mauritânia fora e, mesmo assim, não chegar para pôr o carimbo no passaporte para Marrocos.

Os duelos com os Faraós e com os mauritanianos, marcados para 11 e 19 de novembro, respetivamente, vão ser de dificuldades acrescidas. Com o Egito, pode pensar-se que pelo facto de já ter garantido o apuramento, virá ao Estádio Nacional mais relaxado. Não me parece. Isso não existe em alta competição. E Egito ainda não esqueceu o “atrevimento” dos Tubarões Azuis na última CAN em que Cabo Verde se impôs no seu grupo, tendo sido a única seleção a conseguir vitórias e terminar destacado na liderança da poule.

Com Mauritânia a coisa vai ser ainda mais quente. Os Tubarões Azuis estão atravessados na garganta dos nossos confrades vizinhos aqui da costa ocidental. Foi Cabo Verde que, nos oitavos de final, lhes puseram travão na sua intenção de causar um brilhareto na CAN da Cote d’Ivoire. Como se não bastasse, vieram em setembro sofrer mais um golpe aos dentes dos “requins bleus”. É muito provável que a segunda vaga por preencher no grupo C só venha a ficar definida na última jornada. E se assim for o “Stade de la Capitale”, em Nouakchott, vai ter temperaturas ainda mais quentes que as do vastíssimo deserto mauritaniano.

É na adversidade que o Tubarão costuma mostrar a sua força. E bem que precisa de restituir a sua fama de predador para, deste modo, recuperar-se de uma espécie de depressão pós-CAN. Na mais recente Copa Africana das Nações, disputada em janeiro deste ano, Cabo Verde teve a sua melhor prestação de sempre na maior competição do futebol africano. Ganhou Gana, ganhou Moçambique, ganhou Mauritânia, pelo meio empatou com Egito. E só parou nos quartos de final, por meio dos penaltis, depois de uns 120 minutos sem golos com a África do Sul. A Nação inteira (re)uniu-se e rejubilou-se. Havia caído de pé uma das seleções que mais sensações provocara na Cote d’Ivoire.

A boa onda ainda prosseguiu com duas vitórias em jogos particulares durante o torneio FIFA Series na Arábia Saudita. Posto isto, o tubarão virou bipolar, e é atacado mais do que ataca. Em quatro meses perdeu 4(!) jogos, tendo sofrido goleada nos Camarões (4-1), e no Egito (3-0). Pelo meio ainda ganhou dois duelos em casa com Líbia e Mauritânia mas depressa voltou a tombar numa jornada dupla para esquecer diante do modesto Botswana.

Novembro está à porta e espera-se que ele traga bons ventos. Só o 11º mês dirá se os Tubarões Azuis vão marcar presença pela quinta vez, e pela terceira consecutiva, na Copa Africana das Nações o que, a acontecer, seria mais um feito para Bubista.

Um consolo:

Novembro é tradicionalmente mais tranquilo que “kel ot” conhecido por ser o mês de xkorrôse. E de ondas tropicais, já agora, que este ano até provocaram mar brób nalgumas ilhas, até com alguns estragos significativos, como se sabe.

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