JOGO D’PALAVRA. A topada e a ligeireza de uma senhora... equipa!

03 Julho de 2024

A+ A-

Crónica de Benvindo Neves

Conta-se que certo dia uma mulher passava toda poderosa por uma rua da cidade do Mindelo. De vestido translumbrante e salto alto, ela parecia ter muita pressa para uma cerimónia qualquer. E isso viria a tramá-la. A dada altura, o tukin encrava no intervalo entre duas pedras da calçada e a dama sofre uma valente queda. 

Como soprava aquela ventania típica de São Vicente, a pobre coitada fica toda esfrangalhada no chão, de pernas para o ar e com certas partes íntimas à mostra. Embaraçada, e ainda sem se esfregar, a acidentada apressa-se em levantar-se para não ser vista naquela incómoda condição. Num esfregar d’ôi, está a senhorita de pé! Vira-se e dá de caras com um rapaz que ia passando por perto. Ainda meio desajeitada pergunta: 

“Bo oiá nha lijeréza, boice?”. 

“Dona, n odjal sim, klaru! ma... na Praia go nu ta txomal otu kusa”

A resposta do rapaz veio todo descontraído e com ar de quem quer soltar uma gargalhada mas se esforça em se conter. 

O caro leitor pode tirar seu cavalinho da chuva porque é claro que aqui não vou reproduzir o nome daquele “otu kusa” a que se referia o rapaz. 

Pois bem, o caso da Palmeira fez-me lembrar a ligeireza dessa mulher em se levantar às pressas logo após o tombo numa rua e em plena luz do dia. 

A equipa de Toca Leite tinha sofrido um enorme desgosto no passado sábado quando viu esfumar-se, no Estádio da Várzea, o objetivo de chegar pela terceira vez consecutiva à final do campeonato nacional de futebol. Alcançando a final, Palmeira estaria a alimentar o sonho de conseguir o tão apetecível e inédito bicampeonato nacional. Empatou 0-0 com o Boavista e ficou pelo caminho. 

O conjunto verde e branco  sequer teve tempo de lamber as feridas. Dormiu na capital do país, seguiu viagem no domingo para o Sal, treinou na segunda-feira para jogar na terça. Campeonato Nacional é passado, a equipa agora tem de mudar o chip para um outro jogo a eliminar, a contar para uma outra competição. Normalmente não é fácil!

E lá surgiram os ainda campeões nacionais perante seu público para o duelo com Académica da Praia. Jogo difícil, amarrado! Ninguém marcou nos 90 minutos, pelo que a decisão teve de ir para as grandes penalidades.  Era preciso mentalidade forte, pois a coisa a partir da marca dos 11 metros sempre pode cair para qualquer lado. A Académica da Praia certamente queria muito ir à final. Foi a primeira equipa a conquistar o troféu no século 21, na retoma da competição quase 23 longos anos depois da edição inaugural, realizada em 1982, e ganha pelo Mindelense.  A Palmeira sabia, por isso, que não teria tarefa fácil, ainda para mais escassos três dias depois de ter sido eliminada num outra meia-final por uma outra equipa de Santiago Sul. Tudo podia conjugar-se para atrapalhar o lado psicológico dos jogadores.

Mas, não! Palmeira manteve sua baliza a zero. Tantas vezes tem terminado os jogos sem sofrer! Tantas vezes tem marcado nos minutos finais. Desta vez voltou a não fazer golos, tal como não fizera na tal 2ª mão com o Boavista. Algo nunca visto esta temporada em todos as anteriores partidas que a equipa fez nas duas competições nacionais em que esteve envolvida. 

Restavam as grandes penalidades, uma via que tem sido uma autêntica autoestrada para a Palmeira chegar em segurança ao destino.

E à terceira foi… mais uma vez! A Palmeira eliminou a Académica - recorrendo aos penaltis – e com o seu guarda-redes Djão, novamente, em destaque ao defender três pontapés. 

No espaço de um ano redondo (na verdade ficaram a faltar alguns dias para ser redondo) a Palmeira ganha três jogos decisivos nas grandes penalidades, sendo que os dois anteriores renderam dois inéditos títulos nacionais: o de campeão nacional e o de vencedor da Supertaça de Cabo Verde. 

O mais impressionante nisto tudo é que, nas três vezes, um homem esteve sempre em destaque: o guarda-redes Djão. Na Supertaça de Cabo Verde, por exemplo, disputada no seu Tarrafal natal, travou num belo voo, um forte pontapé de Maniche. E agora na final four da Taça de Cabo Verde, elevou a fasquia e defendeu três grandes penalidades. Se Portugal tem Diogo Costa, Palmeira tem Djão Dudú, que também vai fazendo história pelos estádios deste arquipélago.

Três dias após a queda da Palmeira no Estádio da Várzea, a equipa precisou de apenas três dias para se levantar em grande estilo, tendo como mola impulsionadora o seu guardião. 

Depois do kunklut, viram a ligeireza da Palmeira? Ou será que essa tal ligeireza tem um outro nome?

Pode Interessar

Programação

Mais Acedidos

Últimos Vídeos

Últimos Áudios