Santo Penalty...então, Santo Antão? Até quando o feitiço dos 11 metros?

16 Maio de 2024

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Crónica de Benvindo Neves

A Taça de Cabo Verde é fixe, bué da fixe! É pena que, tal como o torneio Interilhas, seja vítima de constantes e demorados interregnos. De tal forma que, em 42 anos de história, esta é tão-somente a 10ª edição.
A Taça de Cabo Verde é fixe porque é verdadeiramente para todos. Dá oportunidade para os chamados underdogs (se houvesse tradução automática para a nossa língua, mostraria uma coisa literal parecida com dbóxe d´Kôtxorre).

Este ano, por exemplo, tivemos na competição uma equipa da segunda divisão do regional de Santiago Norte – Estrela dos Amadores – e o último classificado do regional de Santo Antão Norte - Paulense. Os encarnados da Cidade das Pombas, aliás, estão ainda em prova e, caso vençam a Juventude da Boa Vista na 2ª eliminatória, vão marcar presença na final-four, prevista para finais deste mês na ilha do Sal.

Tradicionalmente, marca-se poucos golos na Taça de Cabo Verde. Compreende-se. É jogo de mata-mata, daí que seja natural que as equipas estejam mais “amarradas” à tática. Os penaltis têm sido, pois, um recurso recorrente para se avançar na competição. Na edição deste ano, em quatro partidas já disputadas, três foram decididas através da marcação das grandes penalidades: Paulense x Atlético (0-0), Vulcânico x Académica Praia (1-1) e Sanjoanenses x Mindelense (0-0). Só a eliminatória entre Académica da Praia e Estrela dos Amadores (4-1) foi resolvida nos 90 minutos.

Esta quarta-feira, 15 de maio, o Estádio Municipal do Porto Novo voltou a ser palco de mais uma contenda entre vencedores das taças de Santo Antão Sul e  São Vicente. Tal como no ano passado em que a Académica do Mindelo eliminou Académica do Porto Novo nos penaltis, desta vez só mudaram os protagonistas. O Mindelense atravessou o canal para atirar Sanjoanenses para fora da prova, recorrendo aos pontapés a partir dos 11 metros, isto depois de um empate a zero.
O desfecho pôs-me a pensar na malapata  que os santantonenses têm com os penaltis. É um registo negativo impressionante em competições nacionais que até pode levar os mais supersticiosos a pôr a cabeça a imaginar besnéria.

Pois bem, num breve exercício de memória, vamos lá recordar os últimos 17 anos. Estava-se em 2007. A então direção da Federação Cabo-verdiana de Futebol teve a brilhante iniciativa de retomar a famosa Taça Independência, vulgo Interilhas, isto depois de um interregno que já durava 8 anos. A última edição tinha acontecido em 1999, em simultâneo nos dois estádios ainda pelados de Santo Antão. 

São Vicente incumbiu-se de organizar o torneio na retoma. Contra as previsões ditadas pelas estatísticas da altura, a seleção de Santo Antão chegou à final depois de ter feito uma extraordinária campanha.

Que finalão! Em campo duas seleções vizinhas, estádio Adérito Sena abarrotado de gente e grande espetáculo no relvado. O jogo terminou com empate a duas bolas após prolongamento. A decisão foi para os penaltis. São Vicente ganhou! Na memória dos santantonenses ficou aquele penalti desperdiçado de forma tão desajeitada por Keguéi, então jogador do Solpontense. Durante anos, Keguéi deve ter passado piôr k Rót ne Bli na boca do povo da ilha.

Cinco anos depois, em 2012, agora a nível de clubes, Santo Antão via-se pela primeira vez na iminência de conquistar o seu primeiro título nacional. A Académica do Porto Novo foi à final da Taça de Cabo Verde com o Onze Unidos do Maio. A fase final aconteceu na ilha do Sal.

Onze Unidos fez 1-0 e foi para o intervalo em vantagem. Académica empatou logo no início da segunda parte e, momentos depois, a Corveta viria a beneficiar de um... penalty. O insuspeito Oceano foi chamado a marcar. E falhou! Até Oceano! O jogo foi para o prolongamento, Onze Unidos fez 2-1 e ficou com a Taça.

Em 2015, Santo Antão busca novamente na ilha do Sal uma quarta presença na final do interilhas. Tinha estado em três finais consecutivas entre 2007 e 2011 (só falhara a de 2013). Nas meias-finais encontra a seleção da Boa Vista. O jogo termina empatado 1-1. Foi dramático o momento que se seguiu. Na marcação das grandes penalidades houve bolas na trave, bolas para as nuvens, defesa dos guarda-redes e, de vez em quando, um golo.

Santo Antão perde, Boa Vista avança para a final com São Vicente.

No ano seguinte, em 2016, a Académica do Porto Novo estava no auge de um percurso imaculado. Recheado daquela que muitos consideram a melhor geração de sempre de futebolistas de Santo Antão, a equipa passeou sua classe no Campeonato Nacional e foi para a sua segunda final (tinha estado na de 2013) novamente com o Mindelense.

Numa final a duas mãos, a primeira tinha sido no Estádio Adérito Sena. Académica foi lá vencer por 1-0. Era a oportunidade de ouro para a equipa ganhar algo no panorama do futebol nacional. Uma semana depois, o tira-teimas em Porto Novo. Académica vacilou! Perdeu 1-0, tudo ficou empatado ao fim de uns longos e dramáticos 120 minutos. O campeão de Cabo Verde tinha de ser encontrado nas grandes penalidades.

A série de penaltis estava a chegar ao fim. O Mindelense desperdiça. A Académica tem no seu jovem talentoso Davy o match point. Ele é exímio marcador de panaltis. Davy tem quase 800 km2 de terra e mais de 40 mil almas sobre seus ombros. O jovem parte para a bola e coloca-a mansamente nas mãos do guardião do Mindelense.  A seguir, os Leões da Rua da Praia convertem, empatam e agora abre-se nova série. O experimentado Ady é quem segue. Bola na marca, lei da bomba já em desespero e... bola na trave. Mindelense fica com o penalty decisivo e resolve tudo.

Sete anos depois, no ano passado, Académica do Porto Novo recebe Académica do Mindelo para a primeira eliminatória da Taça de Cabo Verde. O jogo termina sem golos e, Óhh Corveta, querendo ou não, vais ter de ir aos penaltis, pá! Estava 4-3 para os são-vicentinos quando Buiúta se viu  obrigado a marcar.  Pouco balanço, pé esquerdo na bola e zás... no poste!  Podja ficou com a grande oportunidade de resolver para a equipa do Mindelo e... pumba, lá dentro!
Passado um ano redondinho, ontem, na verdade o que se viu novamente no estádio Municipal do Porto Novo foi mais do mesmo!

E o feitiço dos penaltis continua a atazanar o miolo dos santantonenses nas competições nacionais. 
Perante esta malfadada realidade, que tal alguém pensasse em abrir uma academia especializada em penaltis pelos lados de Santo Antão? Porque a coisa já ficou séria demais. Mas tem de ficar no Paul, pode até ser naquela metade de campo pelado. Contanto que seja no Paul. Afinal, há dias Paulense passou para a segunda eliminatória da Taça de Cabo Verde vencendo Atlético nos penaltis. Foi a exceção para confirmar a regra, madrasta regra!

Nhe Flecióne mrrê diazá, Lombo d’Santa en nê soluçon!  Por isso, Academia, já!
Ahh, grinhecin, pior ke Sentonton ne penaltis so Benfica! 

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